30 mai | AMOR AMORTECIDO

Projeto de Exposição Coletiva com as artistas Adriana da Conceição, Alice Grou, Ana Almeida, Ana Di Basso, Cecilia Stelini, Dorothea Freire, Marilde Stropp, Norma Vieira, Vera Orsini e Vera Richter.
No AT | AL | 609, abertura, 30 de maio às 19h30 horas e apresentação de Performances às 20h30.

 

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A Exposição Amor Amortecido reúne trabalhos das artistas que formam o Grupo de Estudos do Ateliê AT AL 609 em Campinas SP.
As ideias contidas no livro Amor Líquido de Zigmunt Bauman inspiraram a realização dos trabalhos apresentados.
Com este texto tento passar um fio pelo tecido das obras, bordar sobre a fala das artistas a respeito de seus trabalhos.
Alice Grou apresenta uma projeção fotográfica ocupando uma parede de 2,80m x 2,90m que ela intitula “À Deriva”. Com este trabalho ela pretende provocar, através de uma imersão em imagens de uma placidez difusa, uma reflexão a respeito da fluidez e ambivalência das atuais relações humanas.
Marilde Stropp fez um vídeo denominado “Passante” que retrata o modo de vida da sociedade de hoje em dia onde todos passam e nada é visto, para falar do seu trabalho ela se apropria de um texto de Olgária Matos: Ordenação e Vertigem – “…Benjamin toma de Baudelaire a “fervilhante cidade, cidade cheia de sonhos”, “onde espectros em plena luz do dia capturam o passante”. As passagens, como emblema da modernidade, são o espaço da multidão alucinatória; os rostos são abstratos, padronizados como as mercadorias que se multiplicam sem limite, e o lugar dos sonhos solitários é a um só tempo presença aguda do real (a materialidade palpável das coisas, das mercadorias) e perda da realidade. A metrópole é lugar absoluto onde se anulam todas as fronteiras. Interior e exterior, o próximo e o distante se enlaçam em uma cooperação imaginaria”….
Vera Orsini apresenta um “backlight” composto de quatro fotografias em P&B onde pode ser visualizada a solidão vivida em uma relação a dois, traduzindo imagens do estar com sem, no entanto, estar presente.
Penso que estas obras referem-se a uma modalidade de vida muito frequente nos dias atuais. Construímos um ideal narcisista do qual nosso auto-amor ou amor próprio se alimenta. Com esta construção não estamos conseguindo qualificar o outro como próximo.
Adotamos a lógica da preferência e do menosprezo; do desejo de ocupar o lugar de privilégio em relação ao outro e dos atributos que se deve possuir com a finalidade de realizar este desejo. Há uma desconfiança de tudo e de todos e não há a equiparação da semelhança.
Encontramos com pessoas na rua que nem mais respondem aos nossos cumprimentos. Não somos mais vistos. Temos o sentimento de estrangeiros dentro e fora de nós mesmos.

A obra de Norma Vieira “Poema Líquido”, baseada no livro do poeta paulista Baptista Cepellos intitulado “Os Bandeirantes” de 1906, fala da poesia, da paixão e do amor cuja forma não tem mais ressonância no mundo contemporâneo.
Norma aponta o avesso do amor, o desinteresse pela fala do outro, a falta de empatia que hoje impera nas relações humanas. As pessoas estão mais interessadas em falar de si sem se importar em querer ouvir o outro. A comunicação em todos os níveis está complicada, parece que não se fala mais a mesma língua. O desentendimento acontece de forma generalizada. As afinidades estão se tornando escassas nessa nossa sociedade do descartável. Estamos ficando sem espelhos para refletir o olhar do outro.
Ana Di Basso constrói um objeto de performance que ela denomina “Alma de Fora” constituído por uma vestimenta que, à primeira vista, lembra uma burca, com vários bolsos de diversos tamanhos e cheios de areia. A pessoa que se dispõe a vesti-la, se encontra com a transformação dos sentidos em relação ao espaço que a rodeia. As forças da vestimenta se chocam com as vontades de quem a veste.
Ana Di Basso simboliza com uma vestimenta como somos cerceados pelos próprios fardos que carregamos, como é difícil ter uma “alma de fora” que não se harmoniza com a “alma de dentro”, como o desencontro de densidades afeta a condução de nossa vida. Delimita nossa solidão, nos mostra que o mundo externo não nos pertence, podemos contar, quando muito com o nosso mundo interno, embora não tenhamos acesso a todas as suas partes.
Adriana Conceição apresenta” Vão, de Acesso”. No chão será adesivada a imagem de uma escada, capturada em uma Arquitetura de abandono. O tempo não a poupou, são profundas fissuras, trincas e rupturas. Mesmo assim permanece integra, correspondendo a sua função. As estruturas interiores estão precárias, mas o acesso é mantido livre. Na parede, 6 degraus em fórmica azul ocupam uma área de 3,00m². Sugerem a perfeição estrutural, o durável e o seguro.
Quando Adriana fala de uma” arquitetura de abandono” não posso deixar de pensar em sentimento de perda, de revivência da situação de abandono originário, das marcas deixadas por este ato. Ele é inscrito em níveis tão primitivos de nossa existência que não conseguimos dominar e muito menos curar esta ferida no nosso narcisismo primário. O abandono rebaixa a nossa existência, expõe as nossas carências, não encontramos pontos de referência, ficamos isolados no nosso desespero. É uma situação que nos põe diante da nossa mediocridade, da nossa impotência. Encontrar o caminho para continuar em pé é muito árduo e exige muita coragem. O impacto é muito violento no nosso ego. Ficamos como testemunhas da nossa devastação psicológica.
Dorothea Freire reflete sobre a vida dos miseráveis em sua obra “Desafortunados”. Para ela”sobreviver e manter-se vivo é o lema entre os miseráveis que, fugindo de guerras ou perseguições, são alocados em territórios que deveriam ser transitórios, mas que se tornam permanentes.”
Penso que, hoje em dia, as pessoas estão se agrupando de acordo com o grau de fortuna e de infortúnios. Isolam-se em condomínios para evitar a violência, mas está cada vez mais difícil a convivência dentro da suposta homogeneidade. No outro extremo estão os integrantes das comunidades, como é dito hoje em dia, tentando construir uma proteção contra o sofrimento, trazido pela globalização, do não ter. O ter é um critério de relacionamento que deve ser protegido dos que não tem. E o ser onde está ficando? O ser não traz felicidade. Esta é buscada num relacionamento emocional com os objetos de consumo.

Ana Almeida materializa sua ideia “… e aquilo a que assisto sou eu “ numa série de fotos, registros de movimentos realizados em estúdio fotográfico, explorando a interação entre pedaços do corpo (pés e mãos) com a cabeça encoberta por um respirador branco. O corpo, todo vestido de preto no fundo preto, se torna um corpo invisível, uma sugestão de corpo, presente pelas mãos e pés descobertos. O objeto é construído com tubos plásticos, costurados no tule branco com fios e elásticos. Essa interação corpo /objeto foi realizada através de movimentos inspirados na obra de Fernando Pessoa, onde é colocada a questão da “outridade”, e de onde extrai o titulo deste trabalho. Trata-se de um corpo invisível, ausente porém presente, esvaziados de referência, já que o corpo todo está vestido de preto sobre o fundo preto. O corpo em relação com o objeto acaba construindo um outro corpo em metamorfose, transformado pela densidade de movimento, pela contraposição entre sombra e luz.
Ana Almeida consegue com este trabalho desfazer a primeira imagem que o sujeito tem de si mesmo que é a imagem corporal. A primeira noção de” eu” que permite delimitar um dentro e um fora. Ela mostra a desconstrução da identificação e a partir do respirador artificial estabelece uma tentativa de dar vida ao sujeito invisível e fragmentado que nos identifica hoje em dia.

Cecília Stelini -realiza uma performance ” AMOR DES TECIDO” que remete à dor provocada pela invisibilidade, o descarte e a solidão.
A artista se posiciona atrás de uma cortina de tecido de algodão branco, leve mas não transparente. Ao iniciar com suas mãos a ação de desfazer o tecido, surgem no mesmo marcas de sangue ( provocadas pela pressão de um coração de porco que leva amarrado em uma das mãos).
Cecília provoca uma intenção de intimidade e solidariedade que se manifestam na presença da dor. Ao estarmos sós com a nossa dor atingimos níveis de compreensão muito profundos, entramos em contato com a nossa singularidade. Temos a possibilidade de harmonizar o nosso sentimento de amor para consigo mesmo, construímos as bases para adquirirmos a capacidade de ficar só. É o nosso batismo de sangue!

Maio/2014 Vera Richter

 

 

AMOR AMORTECIDO

O amor está sendo tecido?

A urdidura é a meta.

O fio do amor está perdido.

Os confortos sociais e existenciais proporcionados pelo amor não estão mais iluminando e dando sentido à vida por muito tempo. O importante, hoje em dia, é a renovação,  o quanto mais melhor, em vários segmentos do existir humano.

O porto seguro proporcionado pela criação conveniente do amor romântico não segura mais ninguém. Os portos tornaram-se móveis, não estão sempre no mesmo lugar como se encontravam antes. O amor é uma viagem onde são procurados, porém nem sempre encontrados, lugares seguros que possam aplacar a insegurança interior, cada vez mais aparente.

A rede é que dá a força do existir. Dá a segurança do pertencimento. Tem a sua lógica própria de inclusão, representa a fragmentação que se encontra o ser humano com todas as suas contradições que parecem não ter pontos de reconciliação. Os relacionamentos apontam para a solidão dos nós da rede, para a fragilidade dos fios e do tecido. Diante da máquina de fazer insegurança, que é a própria vida, as pessoas não conseguem ver o todo e agarram-se a algumas delicadas estruturas da rede para que possam se apoiar a fim de recompor seus fragmentos esparsos.

Com a tecnologia atual as pessoas controlam-se entre si para que não saiam das imposições superficiais impostas por uma sociedade cada vez mais fútil voltada ao culto da imagem. Os  padrões de beleza e consumo estão se tornando cada vez mais exigentes e menos flexíveis. É o leito de Procusto, aquele que estica ou reduz, permeando os valores que devem ser seguidos. Cada vez fica mais difícil a tolerância com as diferenças, só as medidas e o exterior são valorizados, estamos sendo levados a uma vida efêmera, restrita, superficial e árida.

Vera Richter